casal grávido sentado de mão dada

A sexualidade durante a gravidez

Gravidez, Saúde & Cuidados na Gravidez

29 de Maio de 2020

A gravidez é uma fase da vida de complexidade biopsicossocial considerável com repercussões a vários níveis do relacionamento do casal. Durante a gravidez, ocorrem profundas alterações físicas e psicológicas, que se repercutem no comportamento da mulher, mas também do homem, nomeadamente ao nível da sexualidade. Implica que ambos os elementos do casal façam adaptações, no sentido de manter ou melhorar a qualidade de vida de que desfrutavam antes da gravidez.

A sexualidade durante a gravidez é um assunto que frequentemente suscita dúvidas e medos angustiantes para o casal. A persistência até aos nossos dias de vários mitos e tabus, a maioria sem fundamento, que nem as vitórias científicas destes últimos anos conseguiram alterar, podem afetar a sexualidade do casal.

É importante que os casais tenham consciência de que as mudanças e flutuações do interesse sexual são comuns e que as atividades sexuais são permitidas e até estimuladas, e que podem inclusive explorar outras formas de sexualidade.

Na atualidade, a sexualidade é reconhecida como um componente essencial de todo o ser humano, cujo exercício se rege num complexo contexto biopsico-social, ético e cultural. A expressão da sexualidade é altamente individual, e tem de ser pensada num determinado contexto de crenças e valores culturais, sociais e religiosos.

Para a Organização Mundial de Saúde, “A Sexualidade é uma energia que nos motiva para encontrar amor, contacto, ternura e intimidade; ela integra-se no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados; é ser-se sensual e ao mesmo tempo ser-se sexual. A sexualidade influencia os pensamentos, sentimentos, ações e interações e, por isso, influencia a nossa saúde física e mental”.

Desejo sexual durante a gravidez

O desejo sexual durante a gravidez varia de mulher para mulher. Há mulheres que mantêm o desejo sexual como dantes e outras veem esse desejo diminuído, aumentado ou variar ao longo das 40 semanas de gestação.

A tendência é para que haja uma diminuição progressiva do interesse e vontade em manter uma atividade sexual.

Isto deve-se, essencialmente, à ansiedade motivada pela aproximação do parto, com todo um mundo de dúvidas e receios relacionados com o parto em si e com a criança que vai nascer. A ausência ou manutenção da libido depende também de como a mulher aceitou e encara a gravidez e da relação afetiva que tem com o seu companheiro.

De uma maneira geral, o que se verifica em relação à mulher grávida, é um decréscimo do desejo, da tensão sexual e consequentemente da frequência do coito, no primeiro trimestre, devido ao medo de lesar o feto. No segundo trimestre, há um aumento do desejo e uma resposta mais satisfatória do que antes de engravidarem, e referência a um aumento das fantasias e dos sonhos eróticos, assim como o recurso à masturbação. E no terceiro trimestre a frequência do coito diminui novamente, sendo a resposta sexual menos satisfatória, com referência a desconforto e contratilidade orgástica menor, seguida de um período de resolução mais lento, que por vezes não resolve a tensão sexual.

A perda de desejo nesta fase é justificada pelo desconforto e cansaço físico, em alguns casos por contra-indicação clínica, e noutros foram os companheiros que cessaram as relações sexuais.

Durante a gravidez ocorrem profundas adaptações bioquímicas, fisiológicas e anatómicas, atribuídas às hormonas da gravidez e às pressões mecânicas produzidas pelo aumento do útero e de outros tecidos. As adaptações à gravidez protegem o funcionamento fisiológico da mulher, respondem às necessidades metabólicas impostas pela gravidez e permitem o crescimento e desenvolvimento do feto. Algumas adaptações à gravidez conduzem a desconfortos tais como fadiga, aumento do número de micções, náuseas e aumento da sensibilidade mamária.

Efeitos das adaptações à gravidez na sexualidade

No primeiro trimestre, o aumento do volume sanguíneo é responsável pela congestão mamária e da região pélvica. O entumecimento suplementar que ocorre com a excitação sexual pode não ser erótico e provocar mesmo desconforto causado pela tensão extrema. Pode mesmo surgir desconforto ou irritação vaginal aquando da penetração. No fim deste trimestre, a vagina aumenta consideravelmente a lubrificação, sobretudo nas multíparas, podendo manter-se para além da excitação sexual.

O segundo trimestre é reconhecido por um período mais confortável. O aumento da vascularização e o ingurgitamento das mamas, grandes lábios e vagina, continuam a aumentar a tensão sexual, facilitando a capacidade orgástica. A mulher sente-se feliz e mais segura, capaz de admirar o seu corpo que se tornou fonte de prazer para ambos os parceiros e maravilha-se com os movimentos fetais. No entanto está descrito que durante o orgasmo registam-se contrações uterinas, sem prejuízo para o feto, mas que são seguidas de uma redução da atividade fetal e por fim de uma hiperatividade compensatória, o que pode prejudicar a sensação de relaxamento sexual da mulher.

No último trimestre, o aumento da tensão sexual mantém-se forte, podendo mesmo ser maior devido ao aumento da pressão pélvica do útero, e a fase de resolução mantém-se como no trimestre anterior, mais lenta do que antes de engravidar, podendo manter-se o estado de tensão sexual depois do orgasmo. Também a lubrificação vaginal se mantém abundante. Em contrapartida, o desconforto provocado pelo tamanho do útero, a azia, as cãibras, o peso, a posição fetal, a saída de leite provocada pela excitação e as fortes contrações uterinas após o orgasmo, são aspetos que influenciam negativamente as relações sexuais. Para além do impacto sobre o desejo que tem a imagem corporal e o medo em magoar o bebé, pode surgir aqui a preocupação de que o coito desencadeie o parto prematuramente.

A alteração das posições do coito, fundamentais nesta fase, pode ser difícil de se conseguir para alguns casais.

E o homem?

O homem também sofre alterações no seu comportamento sexual. Alguns apresentam uma progressiva diminuição das tentativas para iniciar qualquer atividade sexual com as mulheres a partir do segundo trimestre, ou mesmo antes, com receio de magoarem o feto ou a esposa. Outros não apresentam modificações nos seus desejos em relação aos níveis de pré gravidez e alguns sentem-se mesmo excitados pelas suas mulheres grávidas e pelo aumento da intimidade emocional, aproximação e felicidade.

A valorização pelo homem da gestação como fruto da sua fertilidade pode associar-se a sentimentos de virilidade e gratidão para com a mulher, levando a uma conduta mais calorosa e protetora, enriquecendo afetivamente a relação e estimulando o interesse sexual durante a gravidez.

Alguns homens, no entanto, apresentam sentimentos de ciúme, de solidão, causados pela natural absorção narcísica da mulher, do temor de causar dano no feto, de ambivalência e de culpa. Até porque para alguns ainda existe a crença irracional de que é imoral ter sexo com uma gestante, ou que o feto pode ferir o seu pénis, entre outras crenças irracionais que podem coexistir simultaneamente nas mulheres.

As preocupações por parte dos casais que consideram que a atividade sexual conduz ao aborto e que prejudica o feto parecem ser mais frequentes no primeiro trimestre e diminui progressivamente em cada trimestre. A preocupação com o rompimento prematuro das membranas, associam-se ao segundo trimestre mais frequentemente e as com o trabalho de parto prematuro no terceiro trimestre.

Sexo durante a gravidez pode ter consequências negativas?

O sexo durante a gravidez tem sido, desde a mais remota antiguidade, associado à patologia obstétrica. Hipócrates considerava o coito como causa de abortamento. Limner (1969) no livro Sex and Unborn Child, comparou o sexo e a gravidez com o conceito bíblico do pecado original, atribuindo o atraso mental congénito ao orgasmo materno e à carência de oxigénio do feto durante o início da vida intra-uterina.

Atualmente, os autores tendem a preocupar-se com esta questão de uma forma livre de preconceitos e têm expressado preocupações mais sérias quanto à possibilidade de o coito e o orgasmo poderem ter consequências adversas no período peri-natal, envolvendo três áreas principais: fatores mecânicos (aborto, hemorragia e rutura prematura das membranas), parto prematuro e infeção.

Está comprovado que a maioria dos abortos espontâneos antes das 9 semanas, derivam de defeitos cromossómicos de que resulta a morte precoce do embrião. Só a partir da 10ª semana é que a sua etiologia começa a estar relacionada com fatores anatómicos como as malformações uterinas, tumores e incontinência do colo uterino. Nestes casos mesmo quando tratados com cerclage está indicada a abstinência sexual, assim como nos casos em que ocorram cólicas abdominais ou hemorragias após o coito e quando há na história da grávida casos de aborto espontâneo no primeiro trimestre.

Durante a gravidez, as hemorragias mais preocupantes são as relacionadas com a placenta prévia, que podem por em risco a vida do feto e da grávida. Atualmente as novas técnicas imagiológicas, particularmente a ecografia, facilitam a identificação precoce da placenta prévia, permitindo a prevenção do acidente hemorrágico. A proibição do coito deve ser regra em toda a grávida que sangra no terceiro trimestre, pelo menos até se saber a causa da hemorragia.

A hipótese de que o coito só por si pode causar a rotura prematura das membranas tem sido considerada, no entanto numa gravidez normal, o coito não pode ser causa da mesma, assim o demonstraram os estudos dinamométricos de Danforth. Contudo, em casos de pressão uterina excessiva (aumento na quantidade de líquido amniótico, gravidez gemelar), assim como em casos de fragilização anormal (placenta prévia, incompetência do colo, ou infeção) e também outros fatores, tais como a primeira gravidez após os 35 anos, carência de vitamina C e traumatismos, o coito e o orgasmo podem ser considerados como fatores secundários, atuando em terreno patológico preexistente, e não a sua causa direta.

É amplamente reconhecido que, no final da gravidez, o orgasmo desencadeia contrações tónicas do útero, idênticas às que se observam durante o trabalho de parto, e que as prostaglandinas do esperma podem desencadear contrações assim como a ocitocina, cuja produção é estimulada pela relação sexual. Contudo, ainda não foi comprovada uma relação direta entre estas contrações e o parto prematuro, com exceção das situações consideradas de risco (má história reprodutiva, parto prematuro anterior inexplicado, incompetência cervical ou apagamento precoce do colo).

A propósito da transmissão de infeções através do coito durante a gravidez, os autores anteriormente citados consideraram que um colo competente e membranas intactas oferecem proteção eficaz contra a infeção na grávida saudável. Em contrapartida quando há incompetência cervical, membranas rotas ou colo apagado e dilatado na fase final da gestação, o pénis pode arrastar para o útero bactérias patogénicas provocando infeções graves.

As doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis, o herpes genital, a gonorreia, a clamídia, as tricomonas, a SIDA, entre outros agentes infeciosos, podem ter efeitos desastrosos na grávida e no feto e, de facto são habitualmente contraídas por via das relações sexuais, devendo ser aconselhado o uso de preservativo nas situações de risco.

Muitas são as dúvidas levantadas quando o assunto é a sexualidade durante a gravidez. Frequentemente a mulher vê-se dividida entre o seu papel de amante e o de futura mãe. A gravidez, podendo ser a maior realização biológica da mulher, deve ser desmistificada e vivida na plenitude de uma alegria saudável, não perturbada por tabus sócio-culturais nem empirismos pseudo-científicos.

Apesar da gravidez ser um período de adaptações físicas, emocionais e também sexuais para o casal, no qual não só a mulher mas também o homem passa por mudanças, não quer dizer que a vida sexual do mesmo deixe de ser tão rica quanto o era. Se a gravidez decorrer normalmente, podem ter relações sexuais até próximo do parto, exceto nos casos de gravidez de risco, em que a prática de relações sexuais pode ser desaconselhada.

Durante a gravidez, as mudanças do perfil físico, bem como as mudanças na libido, podem exigir expressões de afeto diferentes. O beijo, o abraço e a carícia são maneiras importantes de expressar amor e afeição. 

O sexo ajuda a futura mãe a relaxar, além de proporcionar prazer e uma cumplicidade entre o casal, na verdade o que o casal precisa, é de se adaptar a este novo momento das suas vidas. Entendendo a importância da sexualidade durante a gravidez, o casal pode enfrentar cada vez mais unido e fortalecido, as mudanças que ocorrerão a partir de agora no próprio núcleo familiar.

Pai e Mãe devem viver todos os momentos, juntos, sendo um apoio e a segurança do outro, garantindo a aproximação e a continuação da sexualidade. Novas posições, novos toques, novas sensações podem ser descobertas e apreciadas pelo casal em busca da intimidade.

Artigo escrito pela Enfª Graça Alves – Especialista em Saúde Materna e Obstetrícia Mestre em Sexualidade Humana

 

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