O pós-parto é caracterizado por um período variável de tempo, que é marcadamente intenso, física, emocional e psicologicamente. Contudo, esta fase é muitas vezes romantizada, aflorada, como tendo de ser um período de felicidade, de gratidão, de um amor incondicional e isto, muitas vezes, pode contribuir para o sofrimento psicológico de muitas mães que não se sentem assim.
A recuperação física, instabilidade emocional, alterações na relação conjugal, nas relações sociais, privação de sono, rotinas alteradas, prioridades modificadas, sobrecarga, comparação com outras mães e outras formas de “maternar”, pressão interna e externa, são tudo fatores que podem ter um impacto negativo na saúde mental materna no pós-parto.
O que posso sentir?
O que é comum e o que pode ser um sinal de alerta?
De que forma posso cuidar da minha saúde mental no pós-parto?
Antes de mais, importa referir que nem todo sofrimento emocional e psicológico no pós-parto é igual, nem todo o sofrimento é sinal de doença e diferenciar os sinais ajuda a procurar o apoio adequado.
No pós-parto, é comum as mulheres relatarem acentuadas oscilações emocionais, como se estivessem a viver numa montanha-russa, existem muitas mudanças hormonais, a recuperação física do parto, a privação de sono, a adaptação a todas as mudanças e responsabilidades, torna o período pós-parto especialmente intenso e desafiante. Nos primeiros dias de pós-parto podem surgir baby blues, fazem parte deste período de adaptação e quando transitórias não são fator de alarme.
Baby blues
- Afeta muitas mulheres nos primeiros dias de pós-parto (entre 50% a 80% das mães (Bass & Bauer, 2018))
- Caracteriza-se por choro, sensibilidade emocional e oscilação de humor
- Costuma desaparecer espontaneamente entre uma a duas semanas
Reconhecer sinais de alerta precocemente pode fazer uma grande diferença.
Alguns sinais de alerta incluem:
- tristeza intensa ou persistente
- sensação de vazio ou desconexão
- dificuldade em descansar mesmo quando há oportunidade
- pensamentos intrusivos
- medo de ficar sozinha com o bebé
- dificuldade em criar conexão com o bebé
- isolamento social
- sentimentos de culpa ou incapacidade constante
Se estes sinais persistirem ou se agravarem, procurar ajuda psicológica profissional, podemos estar perante um quadro mais grave.
Depressão pós-parto
- Pode surgir nas primeiras semanas ou meses
- Caracteriza-se por: tristeza persistente, ansiedade, choro, diminuição do apetite, exaustão, apatia, culpa intensa, sensação de inadequação, perda de interesse em atividades habituais, oscilações de humor
- Pode interferir no vínculo com o bebé, na vida diária e na funcionalidade da mãe
- A gravidade, intensidade e duração dos sintomas diferencia a depressão pós-parto de baby blues
Ansiedade pós-parto
- Muitas vezes menos reconhecida
- Inclui preocupação excessiva, pensamentos intrusivos, medo constante de que algo corra mal
- Pode coexistir com a depressão (Howard et al., 2023; American Psychological Association [APA], 2020)
Sendo este um período de transição muito intenso e vulnerável emocionalmente, existem alguns cuidados a ter com a saúde mental materna, no pós-parto.
Guia de cuidados a ter com saúde mental no pós-parto
Aqui pode encontrar uma mini-checklist de alguns cuidados importantes que podem fazer toda a diferença na sua saúde mental, durante o pós-parto.
Cuidados básicos
- Comer e beber água regularmente
- Dormir ou descansar sempre que possível
- Tomar banho ou ter, pelo menos, 5 minutos só para mim
Emoções
- Falar sobre como me sinto, com alguém significativo para mim
- Estar atenta aos meus pensamentos e emoções
- Lembrar-me: os meus pensamentos, emoções e sentimentos não me tornam uma má mãe
- Limitar a exposição a redes sociais e a comparações
Apoio e carga mental
- Pedir ajuda prática (cuidados do bebé, refeições, tarefas de casa)
- Delegar tarefas sem culpa
- Dizer claramente o que preciso (não esperar que adivinhem)
- Aceitar ajuda mesmo que não seja “à minha maneira”
Relação amorosa
- Ter “micro-momentos” de conversa, de contacto (abraço, beijo)
- Receber ou dar um gesto de carinho sem expectativa
- Lembrar que nos estamos a adaptar, não a falhar
- Evitar decisões importantes quando estamos exaustos
Autocuidado possível
- Estar ao ar livre, nem que seja à janela
- Ouvir música, ler umas páginas de um livro
- Fazer algo que me lembre de quem sou
- Libertar-me da ideia de produtividade e ajustar expectativas
Coloque estas frases no telemóvel, para ajudar nos dias mais intensos:
- Não preciso de fazer tudo sozinha.
- Não preciso de estar bem todos os dias.
- Pedir e aceitar ajuda é um ato de cuidado.
- Eu também sou importante.
O pós-parto é um tempo de adaptação e vulnerabilidade. Nem todos os dias serão leves e tranquilos, nem todas as emoções serão claras e vão existir emoções e pensamentos que vão abalar a estrutura emocional.
O corpo e mente dão sinais, estarem atentos a esses sinais é essencial para respeitar e cuidar da saúde mental neste período e quando necessário, saber pedir ajuda.
Artigo escrito por Ana Beatriz Sousa | Psicóloga





